28 de abril de 2017

Agora há luz

Agora há luz, agora há o amarelo
tranquilo quando a noite foi já dormir.

Uma cabra desce a medo a Rua 14
entre as sarças da cadenza das coisas monótonas

que a lua convocara através das
suas sarjetas aguitarradas -- Senta-te, rapaz!

Senta-te, Waldo, já disse! -- pousando
a cabeça encaracolada no passeio, o marinheiro

descobre que o seu navio o vai arrastando devagar
para o porto, onde a escuma de óleo

lhe mareja os olhos enxutos com um
reflexo indiferente, desprovido de sol, inofensivo.

Capitão, ainda não é dia, mas já
estás de partida. E, ao nascer o sol,

o amarelo dissolve-se num branco ofuscante
que não é senão o reflexo da noite.

Frank O'Hara, trad. Vasco Gato

Sir Thomas Lawrence

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27 de abril de 2017

Fala

Fala a sério e fala no gozo
Fá-la pela calada e fala claro
Fala deveras saboroso
Fala barato e fala caro
Fala ao ouvido fala ao coração
Falinhas mansas ou palavrão
Fala à miúda mas fá-la bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe
Fala francês fala béu-béu
Fala fininho e fala grosso
Desentulha a garganta levanta o percoço
Fala como se falar fosse andar
Fala com elegância - muito e devagar.

Alexandre O'Neill

Nicolaes Maes

Nicolaes Maes.jpg

26 de abril de 2017

Harmónio

Como ladrão ou mulher
pública: vens de noite.
Trazes o harmónio,
a masculina
música roubada às fontes.
Não te esperava; só uma vez
te esperei tremendo de amor:
eu era tão pequeno
que não me viste.
Nem uma palavra ousas;
só os olhos suplicam que te roube
à morte, que devolva ao sol
a modesta desordem dos teus dias.
Que escute ao menos a pobre
e rouca e desamparada
música do teu pequeno harmónio.

Eugénio de Andrade

25 de abril de 2017

Sir Thomas Lawrence

by Sir Thomas Lawrence.jpg

Zero

Igual a zero a distância ao infinito
Impossível de tocar com nossos braços

Valores estranhos aos corpos
ignorados noite e dia

Zero a distância
zero o próprio espaço

Para quê voltar aos caminhos sem regresso
quando nossas mãos agarram toda a vida?

Eduardo Guerra Carneiro

24 de abril de 2017

Sir Thomas Lawrence

Sir Thomas Lawrence.JPG

No mesmo sítio

Ambiente de casa, de cafés, de bairro
que vejo e por onde ando, anos e anos.

Criei-te em alegria e em mágoas:
com tantos acontecimentos, com tantas coisas.

E inteiro tornaste-te sentimento, para mim.

Kostandinos Kavafis, trad. J. M. Magalhães e Nikos Pratsinis

23 de abril de 2017

Joan Miró

Joan Miró.jpg

Nocturno a duas vozes

-- Que posso eu fazer
senão beber-te os olhos
enquanto a noite
não cessa de crescer?

-- Repara como sou jovem,
como nada em mim
encontrou o seu cume,
como nenhuma ave
poisou ainda nos meus ramos,
e amo-te,
bosque, mar, constelação.

-- Não tenhas medo:
nenhum rumor,
mesmo o do teu coração,
anunciará a morte;
a morte
vem sempre doutra maneira,
alheia
aos longos, brancos
corredores da madrugada.

-- Não é de medo
que tremem os meus lábios,
tremo por um fruto de lume
e solidão
que é todo o oiro dos teus olhos,
toda a luz
que meus dedos têm
para colher na noite.

-- Vê como brilha
a estrela da manhã,
como a terra
é só um cheiro de eucaliptos,
e um rumor de água
vem no vento.

-- Tu és a água, a terra, o vento,
a estrela da manhã és tu ainda.

-- Cala-te, as palavras doem.
Como dói um barco,
como dói um pássaro
ferido
no limiar do dia.
Amo-te.
Amo-te para que subas comigo
à mais alta torre,
para que tudo em ti
seja verão, dunas e mar.

Eugénio de Andrade

22 de abril de 2017

Arthur Dove

Arthur Dove.jpg

Inicial

Dá sempre a tua beleza
sem cálculo e sem palavras.
Calas-te e ela diz por ti: Sou.
E vem com múltiplo sentido,
vem finalmente sobre cada um.

Rainier Maria Rilke, trad. Paulo Quintela

21 de abril de 2017

outra paz

Perde-se com a idade um não sei quê
que era talvez sombra e sabor e até tristeza
e assim temos outra paz de inclinação
em clareiras límpidas tocadas de algum eco
melancólico e lúcido E quase sem ilusão
entregamo-nos ao âmbito de uma paz
que é a medida do mundo quando nada
se nos oferece senão o habitar
aquelas horas de um universo que
é no silêncio glória obscura e transparente
Assim nos inebriamos também da madurez
procurando a inocente incandescência
do tempo quando ilumina as clareiras
e é como se nada ainda fosse passado
na onda lenta que ascende sobre o peito
e que desperta um vago núcleo que inicia

António Ramos Rosa

Caspar David Friedrich

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20 de abril de 2017

Que importa a gramática das coisas

São poucas as palavras que restam,

e asseguro-te que estou bêbado que nem um cacho

(algo muito relativo, nem por isso mas vai bem ao drama);

 

Enfim, que importa aos mouros,

entre tantas pelejas inauditas,

que te sopre o amor dos derrotados

(daqueles que foram os mais viris entre os viris).

 

Eles, os mouros, me derrubarão do cavalo;

eles me tornarão inútil a espada,

eles farão da fé uma coisa vaga

(com sorte, não estarei para ver, deve ser terrível).

 

Não sei se sabem, suponho que saibam

(em quase todas as vidas é assim),

das dores efémeras, que são sempre,

dos desejos entreabertos,

de tudo e mais alguma coisa.

 

Certo, certo,

derrubaram meu cavalo,

e espetei-me no chão.

Acrobático.

 

Perante isso, que dizer?

 

Alguma superioridade, em ter sido, sem ter ido?

algum nome em ponte, nem que fosse do mais pequeno rio

(sei lá, a justificar qualquer coisa aos primos)?

 

Cavalo sem fortuna,

para lá de mapas, para lá de tempos,

bati-me mais ou menos,

sem outros predicados

(no meu dizer das cousas, tudo isto é muito).

 

Não falei, no entanto,

dos teus cabelos

 

Sir Thomas Berard

Caspar David Friedrich

Caspar David Friedrich.jpg

19 de abril de 2017

as palavras

São como um cristal, as palavras.
Algumas, um punhal, um incêndio.
Outras, orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam: barcos ou beijos, as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes, leves.
Tecidas são de luz e são a noite.
E mesmo pálidas verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta?
Quem as recolhe, assim, cruéis, desfeitas, nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

18 de abril de 2017

Caspar David Friedrich

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