23 de março de 2019

Meditação

Há qualquer coisa reposicionando estrelas lentamente.
Qualquer coisa com cuidado, entre uma ideia e outra,
de mãos mergulhadas num prepósito de criar.

Porque nesse enígma que é pensar o mundo,
e pensá-lo diverso, se reclama e expõe
a presença do espírito.
E o poder do espírito é esse recuado
extremo poder de operar a noite.

O trabalho não cessa.
Como se uma mão se seguisse a outra
nessa dinâmica entre os elementos mais essenciais .
As árvores observam o movimento
das constelações no segredo da raiz.
Há qualquer coisa mexendo por dentro a respiração.

Uma palavra natural.
Uma palavra para instaurar a lei sem leis
e encher a duração de ardentes matérias humanas.
Uma pausa, um silêncio vertical,
um presságio de cometas.

Vasco Gato

22 de março de 2019

Alexander Deineka

Alexander Deineka9.jpg

Caminho

Caminho sem pés e sem sonhos
só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.

Daniel Faria

21 de março de 2019

Alexander Deineka

Alexander Deineka2.jpg

Quando vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro

20 de março de 2019

Haiku

dentro do nevoeiro
três pinheiros e dois grous
marido e mulher

Kobayashi Issa

Les mains négatives

Devant l'océan
sous la falaise
sur la paroi de granit

ces mains

ouvertes

Bleues
Et noires

Du bleu de l'eau
Du noir de la nuit

L'homme est venu seul dans la grotte
face à l'océan
Toutes les mains ont la même taille
il était seul

L'homme seul dans la grotte a regardé
dans le bruit
dans le bruit de la mer
l'immensité des choses

Et il a crié

Toi qui es nommée toi qui es douée d'identité je
t'aime

Ces mains
du bleu de l'eau
du noir du ciel

Plates

Posées écartelées sur le granit gris

Pour que quelqu'un les ait vues

Je suis celui qui appelle
Je suis celui qui apellait qui criait il y a trente
mille ans

Je t'aime

Je crie que je veux t'aimer, je t'aime

J'aimerai quiconque entrendra que je crie

Sur la terre vide resteront ces mains sur la paroi de
granit face au fracas de l'océan

Insoutenable

Personne n'entendra plus

Ne verra

Trente mille ans
Ces mains-là, noires

La réfraction de la lumière sur la mer fait frémir
la paroi de la pierre

Je suis quelqu'un je suis celui qui appelait qui
criait dans cette lumière blanche

Le désir

le mot n'est pas encore inventé

Il a regardé l'immensité des choses dans le fracas
des vagues, l'immensité de sa force

et puis il a crié

Au-dessus de lui les fôrets d'Europe,
sans fin

Il se tient au centre de la pierre
des couloirs
des voies de pierre
de toutes parts

Toi qui es nommée toi qui es douée d'identité je
t'aime d'un amour indéfini

Il fallait descendre la falaise
vaincre la peur
Le vent souffle du continent il repousse
l'océan
Les vagues luttent contre le vent
Elles avancent
ralenties par sa force
et patiemment parviennent
à la paroi

Tout s'écrase

Je t'aime plus loin que toi
J'amearai quiconque entendra que je crie que je
t'aime

Trente mille ans

J'appelle

J'appelle celui qui me répondra

Je veux t'aimer je t'aime

Depuis trente mille ans je crie devant la mer le
spectre blanc

Je suis celui qui criait qu'il t'aimait, toi

Marguerite Duras

Monte Kailash

Hindukailash.JPG

19 de março de 2019

Equinócio da Primavera

Em 2019, o Equinócio da Primavera ocorre no dia 20 de março às 21:58 horas. Este instante marca o início da Primavera no Hemisfério Norte. A estação vai prolongar-se por 92,789 dias, até ao próximo Solstício, que ocorre no dia 21 de junho às 16:54 horas.

17 de março de 2019

Alexander Deineka

Alexander Deineka.jpg

se' s

Se eu não agarrar a noite, se não acatar as ordens, se não ouvir o que oiço, se não fizer o que faço, se não lembrar o presente, se não chorar o passado, se não esperar o que espero, se não resgatar os laços, se não me livrar de abraços, o que mais me prende aqui?

Cristina Carvalho

14 de março de 2019

Jean-Pierre Weill

Jean-Pierre Weill.jpg

Fim

Imagem em que te enxerga
enquanto o dia não chega
porque o mundo acabou
antes da alba

remoças o corpo em que te vejo
na idade vulgar: carinho
com que te entrego
o mundo antes que acabe

recomeças a imagem
em passado tempo
de reflexo malfeito
e na poça d'água pisas
o barro molhado
de que serias feita

refazes o início
em renovada imagem e reflexo

o que vês te alucina: passas
pela estrada em que não chegas
que o mundo findou teu destino.

Pedro Du Bois

13 de março de 2019

Marie Laurencin

Marie-Laurencin.jpg

Longe

Há uma gramática aberta
no teu corpo, e soletro cada palavra
que o teu olhar me oferece.

Limpo as sílabas que te
escorrem pelo rosto com um lenço de
vidro, descobrindo a tua transparência.

E sais de dentro de um pó de
advérbios, para que eu te dê um nome,
e a vida volte a correr por ti.

Nuno Júdice

março 2019

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