28 de março de 2017

Tratado de alpinismo analógico

Mantém o olhar fixo na via para o cume, mas não te esqueças de olhar para o que está aos teus pés. O último passo depende do primeiro. Não penses que já chegaste, só por já teres avistado o cume. Tem cuidado com os pés, certifica-te do próximo passo, mas não permitas que isso te distraia do fim mais alto. O primeiro passo depende do último.

René Daumal, trad. Lurdes Júdice

O piso e o passo

Envelheço como o sapato:
quanto menos sirvo
menos aleijo o chão.

Antes,
eu buscava
conhecer um lugar.

Agora,
apenas quero
um lugar
que me conheça.

Mia Couto

27 de março de 2017

Jean Béraud

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O ex-poeta

A madeira flutua na água. As árvores
Curvam-se, lá é verde, a sombra.
Uma criança caminha no prado,
Há uma serração, vista da janela.
Conheci outrora um poeta que concluiu:
O amor não se foi, apenas as palavras do amor,
Disse ele. Foram-se as palavras
Com as quais teria pintado aquele barco.
O vermelho de chumbo nunca se impõe
Nos lívidos poentes do Cabo.
Disse-lhe que sim, que tinha toda a razão.
Ele sorriu e disse: um dia destes
Deixarei este lugar como as palavras me deixaram a mim.

Malcom Lowry, trad. José Agostinho Baptista

26 de março de 2017

A Magnólia

A exaltação do mínimo,
e o magnifico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem a forma
o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria -- na metáfora --
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.

Luiza Neto Jorge

25 de março de 2017

Tetsuo Takahara

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Nota a caminho de casa

É tarde, vou para casa, todas as coisas me olham
mas nada que seja humano; a casca das árvores brilha,
está quase a chover. Os meus amigos estão todos em
cidades,
em Liverpool, em Londres, falando ao telefone,
talvez a amar, talvez
sem saber o que fazer esta noite.
A chuva que ainda não chegou até mim
pode cair agora nos seus telhados,
enevoar as janelas dos autocarros atrás de que vão a
sonhar.

Aqui eu penso como as vidas invisivelmente se unem
tocadas por um tempo comum,
como no espaço que o tempo faz entre
olá e solidão
a memória se gera; se embebe.
Tarde a caminho de casa
o que eu sei de cada um separado dissolve-se,
forma tais sentimentos que eu não sei exprimir
melhor que o vento sobre mim saberia.

Brian Patten, trad. Joaquim Manuel Magalhães

24 de março de 2017

Ivan Pokhitonov

Ivan Pokhitonov.jpg

És mais suave

Que és um dia de verão não sei se diga.
És mais suave e tens mais formosura:
vento agreste botões frágeis fustiga
em Maio e um verão a prazo pouco dura.
O olho do céu vezes sem conta abrasa,
outras a tez dourada lhe escurece,
todo o belo do belo se desfasa,
por caso ou pelo curso a que obedece
da Natureza; mas teu eterno verão
nem murcha, nem te tira teus pertences,
nem a morte te torna assombração
quando o tempo em eternas linhas vences:

enquanto alguém respire ou possa ver
e viva isto e a ti faça viver.

William Shakespeare, versão de Vasco Graça Moura

23 de março de 2017

Bernardo Strozzi

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O poema ensina a cair

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada e subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

Luiza Neto Jorge

Do antiquíssimo sossego

Não desisti de habitar a arca azul
do antiquíssimo sossego do universo.
A minha ascendência é o sol e uma montanha verde
e a lisa ondulação do mar unânime.

António Ramos Rosa

22 de março de 2017

Tetsuo Takahara

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Ode ao Gato

Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

José Jorge Letria

21 de março de 2017

Cornelia Hernes

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As palavras e o silêncio

Palavras não me faltam (quem diria o quê?),
faltas-me tu poesia cheia de truques.
De modo que te amo em prosa, eis o
lugar onde guardarei a vida e a morte.

De que outra maneira poderei
assim te percorrer até à perdição?
Porque te perderei para sempre como
o viajante perde o caminho de casa.

E, tendo-te perdido, te perderei para sempre.
Nunca estive tão longe e tão perto de tudo.
Só me faltavas tu para me faltar tudo,
as palavras e o silêncio, sobretudo este.

Manuel António Pina

20 de março de 2017

Recreio

Há todo um lado recreativo nos gritos de domingo

do qual raramente falamos;

É mais fácil, por escusado e habitual que seja,

deixar que o dia seguinte atrapalhe o próprio dia,

e que o dia em forma mais ou menos própria

se afogue em mágoa:

na mágoa de não ser este um domingo como os de outrora,

gozados a patins e a esperar escola,

querendo escola, o mais possível,

e múltiplas paixões

(entre outras, onde estás, Gigi?).

 

Soube agora mesmo,

no noticiário,

que o nosso presidente

esteve um quarto de hora

para chegar a um queijo

(nem mais nem menos)

e que nem isso lhe retirou o humor

e a disposição de sexta à tarde,

(disposição que enche de orgulho e fezada

uma larga maioria).

 

Foi confirmada a morte de Chuck Berry,

ocorrência que me proporcionou momentos musicais

muito agradáveis

(honra lhe seja feita).

 

No mesmo espaço de notícias

houve muita alegria

a recomeçar o dia

(afinal, não tão longo e demorado quanto isso),

a lembrar tempos épicos e já antigos,

para cá dos meus:

 

"Doidas doidas doidas andam as galinhas

para pôr o ovo lá no buraquinho;

Raspam, raspam, raspam

p'ra alisar a terra,

picam, picam, picam,

para fazer o ninho (...)"

 

E não sei se é do cansaço,

ou da espécie de laço;

Mas penso que verdadeiramente há uma lição imensa

(uma quase esperança, ou uma esperança sem vírgulas)

a retirar do fundo de um sorriso,

ainda mais se desarmado:

 

Quantas gerações de ditadores não honraram mães

e nos passaram pelas veias

(ou pelas veias de outros menos acomodados, o que é um facto),

quanta miséria, quantos queques a rir nos atormentaram?

(###, grandes cabrões, não haverá apelido que escape).

 

A infâmia mudará seus nomes,

mas há letras que enquanto lembrarmos

dão a alguns nomes (por outros que sucedam)

os nomes relevantes que merecem:

 

"Atirei o pau ao gato-to

mas o gato-to

não morreu-eu-Eu

Dona Xica-ca

assustou-se-se

com o berro

com o berro

que o gato

deu (...)"

 

Há tanta falta de amor, no mundo, no bairro e no quarto.

Mas hoje não vamos falar disso.

É domingo.

Por pouco que seja, não é conforto tão pouco quanto isso.

Rui A.

Cornelia Hernes

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Primavera

Em 2017 o Equinócio da Primavera ocorre no dia 20 de Março às 10h29min. Este instante marca o início da Primavera no Hemisfério Norte.

19 de março de 2017

Plano

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

Nuno Júdice

Emil Nolde

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março 2017

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